Seminário em Lages debate Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional
- 22 de jun.
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Evento do PEPS reuniu cerca de 180 lideranças
Por: Jaine Fidler Rodrigues
O Seminário de Políticas Públicas e Desenvolvimento Regional, realizado com os territórios da Serra Catarinense e do Alto Vale do Itajaí, reuniu cerca de 180 participantes em um ambiente marcado por apresentações culturais, partilhas e afetos. Ao longo do evento, ocorreram sete mesas de debate, com os seguintes temas: Polifonias Territoriais (palestra de abertura); Políticas Públicas e Agricultura Familiar; Políticas Públicas e Desenvolvimento Humano; Para que o futuro não vire ruína: territórios, perspectivas de gênero e os limites da nossa imaginação política; Direitos das Mulheres; Fim da Escala 6x1; e Mudanças Climáticas e Políticas Públicas.
O encontro promoveu conhecimento, reflexões sobre problemas sociais e, também, soluções práticas para os territórios, evidenciando o propósito coletivo que sustenta o Programa de Participação Social e Educação Popular (PEPS).

Para que o futuro não vire ruína
Entre as sete mesas, um dos debates mais específicos abordou três eixos: territórios, perspectiva de gênero e os limites da imaginação política. A condução ficou a cargo da estudiosa Amanda Faraco Soares, que denunciou as falhas do sistema vigente, mas também apontou saídas possíveis.
Tomando como principal exemplo a capital do Brasil, Amanda mostrou como as cidades foram historicamente desenhadas por "homens brancos da elite", com foco na produção e no capital, invisibilizando o papel das mulheres nas decisões. “Esse planejamento invisibilizou a reprodução da vida — ou seja, quem cuida das crianças, quem caminha a pé, quem assume o trabalho doméstico e quem sofre com a violência urbana nas periferias. Trazer o gênero para o urbanismo é colocar o cuidado e a segurança das mulheres no centro das decisões”, destacou.
Em sua apresentação, a arquiteta e urbanista enfatizou que soluções existem e que novas iniciativas já demonstram isso. Citou a “Caminhada Delas”, do Coletivo Turba, na Lomba do Pinheiro (RS), onde “transformar o corpo, que é o nosso primeiro espaço político de disputa, e a vizinhança em espaços de resistência e autodefesa” é uma prática concreta. “A nossa vida é muito mais dinâmica [...] e aí a gente tenta quebrar esse repertório de que a nossa vida é setorizada, como se fôssemos caixinhas organizadas”, completou.
Muito além do asfalto e do PIB
A visão tradicional de desenvolvimento, baseada apenas em critérios técnicos como PIB, asfalto e metas fiscais, não contempla a amplitude do que realmente se entende por desenvolvimento regional. Para Amanda, é preciso enxergar o território como um organismo vivo, com memória e ancestralidade. “Quando usamos ferramentas como o etnomapeamento (CRQ Invernada dos Negros), percebemos que o planejamento ambiental de verdade não se faz por satélite, mas pela escuta de quem de fato protege o solo e mantém a vida de pé contra o avanço das monoculturas”, afirmou. Como exemplos práticos que já seguem esse caminho, ela citou a implementação do PGTAQ (Plano de Gestão Territorial e Ambiental Quilombola).
Imaginação Política
Nessa dimensão, a estudiosa fez uma crítica ao sistema que leva a sociedade a acreditar mais em filmes apocalípticos do que em um futuro de bem-estar social. “O sistema neoliberal coloniza a nossa mente o tempo todo para nos fazer acreditar que a única saída é a sobrevivência individual ou a medicalização da nossa angústia. Filmes apocalípticos ou de tsunamis arrasadores estão mais no nosso imaginário social de futuro do que uma retomada do bem-estar social e ambiental”, explicou.
Como via de saída, Amanda defendeu uma mentalidade que insiste em superar as estruturas ultrapassadas vigentes. E reforçou: “Recuperar a imaginação política — uma provocação que Rosa Luxemburgo nos fazia em 1906 — é o ato de rebeldia de voltar a sonhar coletivamente com alternativas estruturais ao modelo que nos consome”.
Segundo ela, essa construção se faz com políticas públicas e com cidadãs e cidadãos ativos em prol da coletividade, a partir de quatro pilares: 1. mudança de perspectiva; 2. caminhabilidade; 3. etnomapeamento; 4. ação coletiva. Amanda percebeu que, durante o evento, nos momentos de monólogo ou de “comício”, o público vibrava — o que, para ela, prova que as pessoas estão "sedentas por novas ativações" e cansadas de discussões engessadas.
A Voz do Território
Segundo o coordenador de Política Social do PEPS, Guilherme Moura, espaços como este são os mais adequados para discutir a realidade de uma região ou território. “Remeto ao conceito de práxis freiriana, segundo o qual a educação, para ser libertadora, exige que pensemos criticamente a experiência e o modo de agir em nossos territórios”, afirmou.
Olhando para a totalidade do evento, Guilherme destacou a união entre o setor acadêmico e a prática dos NAPs em cada território da região do Planalto e do Alto Vale de Santa Catarina. “Tivemos experiências desde a agricultura familiar com turismo pedagógico, que busca ensinar a cultura do campo de forma sustentável e com qualidade de vida, até a luta das mulheres camponesas com seu trabalho em artesanato, construindo outra forma de renda para o campo. Na cidade, uma entidade busca ampliar seu atendimento para cerca de 140 crianças em situação de vulnerabilidade, reduzindo a insegurança alimentar no município de Lages. Outra experiência vem do Alto Vale, junto à Aldeia Laklano-Xokleng — são pessoas descendentes diretamente dos povos originários de Santa Catarina que estão tendo voz e acesso a políticas públicas para melhorar a qualidade de vida de seu território”, contou.
Para o multiplicador em Lages, Santiago Schneider, assim como para Guilherme, dialogar soluções com trabalho de base é essencial. "O seminário me mostrou a importância de compreender outras lutas populares por justiça social e de termos um espaço seguro para o debate de ideias. Me interessei pela luta contra a violência doméstica e o machismo no estado — pauta importante, mesmo eu sendo homem. Por isso, é tão importante escutarmos e apoiarmos essa luta", disse.
Em suma, o evento se mostrou como uma força de esperança e também como espelho da realidade. Como disse Amanda, um misto de “esgotamento com esperança”. O público estava frustrado com a política tradicional, mas engajado quando se sentiu parte de uma comunidade.
E, por fim, “a mudança por uma vida melhor acontece onde habitamos, e o PEPS consegue chegar nesse calcanhar de Aquiles e, junto com a comunidade, trilhar um novo caminho de fé, esperança, equidade e justiça social”, concluiu o coordenador Guilherme Moura.




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