NAPS: Um espaço de cidadania para Quem (Re)Constrói Sonhos Através da Educação
Professor Douglas Vaz Franco transforma a luta pela conclusão dos estudos em um ato coletivo de escuta, acolhimento e formação cidadã com um cursinho popular forjado no diálogo e na sensibilidade freiriana
Por: Jaine Fidler Rodrigues
“Meu NAPs nasceu com o objetivo de ajudar as pessoas por meio da educação.” A fala de Douglas Vaz Franco, professor de geografia, mestre e doutorando em educação, educador popular e pesquisador antirracista, carrega a serenidade de quem compreende a profundidade do que diz. O Núcleo de Apoio e Participação Social, projeto que ele iniciou desde a primeira edição do PEPs, não é apenas um cursinho preparatório. É, em suas palavras e ações, um espaço tecido com os fios do diálogo, da paciência e de uma consciência social que entende a educação como um ato político e sensível.
O projeto, que ganha força em sua segunda edição, destina-se a um público muito específico e imensamente valioso: trabalhadores e trabalhadoras que, há muito tempo distantes da escola, desejam retomar seus estudos e obter a certificação por meio do ENCCEJA. “São trabalhadores que desejam estudar, não estudantes que querem trabalhar”, pontua Douglas, em uma distinção fundamental que guia toda a metodologia do grupo. A sensibilidade para essa realidade fez com que o NAPs se tornasse um porto seguro que vai muito além da sala de aula. “A gente acaba fornecendo orientação pedagógica, mas também documental para esse pessoal que está muito tempo fora da escola, às vezes não sabe como fazer a inscrição. A gente ajuda desde o início da inscrição até a realização da prova.”

O processo de construção do projeto é, em si, um reflexo da educação popular que o inspira. Tudo nasce do encontro. Mensalmente, a equipe — composta majoritariamente por professores, mas enriquecida por educadores populares forjados nos movimentos sociais — se reúne para traçar estratégias. A cada ciclo, como uma comunidade que se prepara para uma grande colheita, eles bolam o lançamento do curso, planejam materiais didáticos e refletem sobre a linguagem mais adequada para tocar o coração e a mente daqueles que não pisam em uma escola formal há anos. “A gente constrói tudo a partir dos encontros, do tempo de comunidade”, reforça o educador.
Essa construção circular e coletiva transbordou os limites do grupo e criou raízes na própria comunidade. “O envolvimento com as lideranças foi super necessário, porque a gente criou uma rede de articulação onde um ficava indicando o outro: ‘Ah, eu conheço uma vizinha que quer terminar os estudos’, ou ‘eu tenho uma tia que quer também’.” A capilaridade da rede se revela até nos corredores da escola onde Douglas leciona: ao vestir a camiseta do projeto, o professor se tornou um ímã de novas histórias. “Os alunos também destacavam: ‘meus pais também não terminaram os estudos, então eu vou falar para eles assistirem as suas aulas’.”
Na primeira edição o NAPs contava com cerca de 10 voluntários, a segunda edição, impulsionada pelo PEPs 2, viu o senso de liderança compartilhado florescer. Hoje, são de 20 a 25 pessoas dedicando seu tempo e conhecimento de forma totalmente voluntária. A equipe, tecida na diversidade de saberes, conta com psicólogos que oferecem suporte emocional, comunicadores que registram a jornada e professores de diferentes disciplinas, unidos por um mesmo desejo de “transformar o mundo por meio da educação”.
Para Douglas, o objetivo maior não é a mera entrega de um diploma. Nos debates sobre os conteúdos, que se entrelaçam com discussões sobre a escala 6x1, por exemplo, a intenção é nítida: forjar a consciência social e cidadã. “A ideia é que todos possam participar de todos os momentos”, diz, ecoando o princípio da circularidade. A esperança que move esse grupo diverso — que reúne antigos colegas de faculdade e docentes encontrados pelo caminho — é a de que, ao ajudar as pessoas a fazerem “uso pleno da cidadania”, o NAPs se torna um testemunho vivo de que, como ensina Paulo Freire, a gente transforma as pessoas, e as pessoas transformam o mundo.
Essa conexão profunda com o território e com a ancestralidade encontra seu símbolo maior no nome do grupo, que carrega o legado familiar de outra liderança do território que inspira Douglas, Dona Ni. “Dona Ani é a minha avó, Aldenir Crispim Vaz Franco. Ela foi uma mulher negra que faleceu lutando pela educação dos seus. Ela não conseguiu terminar os seus estudos, mas sempre incentivou os seus filhos e seus netos. Eu tenho esse legado comigo enquanto neto, trago o nome e a imagem dela na estampa da camiseta, e essa mensagem de que a educação e os nossos sonhos podem se tornar reais se a gente confiar nesse poder transformador.”




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