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Seminário debate raízes patriarcais da violência e caminhos para a autonomia feminina

  • 9 de jun.
  • 5 min de leitura

Por: Jaine Fidler Rodrigues

Por trás de todo tipo de violência contra a mulher existem causas, histórias, amarras e crenças que, em sua complexidade, abrangem diferentes dimensões. Com o objetivo de adentrar essas esferas sociais, foi realizado no dia 30 de maio, em Videira, o Seminário Regional com o tema “Violência Contra a Mulher: entre leis e a realidade”, reunindo 270 pessoas entre articuladores, multiplicadores, multiplicandos, entidades, lideranças e a comunidade, do Alto Vale do Rio do Peixe e Planalto Norte.


As apresentações culturais e os debates mostraram que, em uma região marcada principalmente pelo Contestado, o silêncio e o medo ainda afeta muitas mulheres. O julgamento segue como um comportamento perpetuado. É o machismo e o patriarcado evidenciando o que a sociedade não precisa. O consenso é: as mulheres têm direito a autonomia, liberdade e respeito. 


Olhar além da violência

Após uma manhã de apresentações culturais, a advogada trabalhista Luiza Beckhauser Mallon conduziu o assunto proposto. Segundo ela, para compreender a violência contra a mulher é preciso ver além dos fatos em si. “Durante séculos, as sociedades foram estruturadas sob uma lógica patriarcal, que concentrou poder político, econômico e social nas mãos dos homens e atribuiu às mulheres posições de submissão. Por isso, a violência de gênero está profundamente ligada a relações de poder.”


Essa carga histórica e social refletida em atos violentos é percebida especialmente quando a mulher exerce seu direito de decidir sobre a própria vida — ao terminar um relacionamento, conquistar independência financeira, ocupar espaços de liderança ou simplesmente fazer escolhas próprias. “O agressor não reage necessariamente por amor ou ciúme, mas porque percebe que está perdendo o controle que acreditava possuir”, complementou.


A realidade

Diante dos avanços alcançados, como a criação da Lei Maria da Penha, a tipificação do feminicídio e uma maior conscientização social, está claro que estamos em uma travessia social. Para Luiza, “estamos em um momento de avanço, mas também de reação. Vemos o fortalecimento de movimentos que reagem a essas conquistas. Discursos misóginos ganharam espaço nas redes sociais, assim como grupos que defendem a supremacia masculina, a exemplo de determinados segmentos do movimento ‘redpill’”.


A palestrante entende que houve progresso no reconhecimento dos direitos das mulheres, mas ainda encontramos resistência à ideia de que elas têm o direito de exercer sua liberdade e autonomia. Durante o Seminário, Luiza relata ter sentido preocupação diante da complexidade do problema e esperança ao perceber que existem caminhos para a resolução. O entendimento é de que essa violência não será resolvida apenas com leis e punições. Temos como vias concretas de solução: educação, fortalecimento das redes de apoio, acolhimento das vítimas, atuação das instituições e mudança cultural.


“O que mais me marcou foi perceber que o feminicídio não é apenas um crime contra a vida da mulher. Ele é, muitas vezes, a manifestação extrema de uma tentativa de impedir sua autonomia. Em essência, é um crime contra a liberdade feminina. Por isso, combatê-lo significa construir uma sociedade em que as mulheres possam viver, escolher e existir sem que sua independência seja vista como uma ameaça”, frisou.


Luiza Mallon
Luiza Mallon

A naturalização da violência 

Uma das faces mais sombrias da nossa história é a capacidade humana de naturalizar o que não deveria ser naturalizado. Diante de fatos violentos e estruturas patriarcais consolidadas, atitudes repetidas à exaustão foram normalizadas, como a violência contra a mulher no contexto do Contestado. “Aqui, nestas cidades marcadas por essa história, a questão da violência ainda é muito forte, muito gritante. Eu sempre falo que, por muitos anos, naturalizamos a violência, ela se tornou algo corriqueiro para nós, e não é”, explica a multiplicadora Gabrielli Machado.


O Seminário cumpriu um papel de desconstruir crenças, padrões e opiniões. Seguindo essa linha de atuação, dentro do que o PEPS propõe, Gabrielli também relata que integra um NAPS que desenvolveu um projeto voltado a atendimentos psicossociais, que contará com psicólogos, assistentes sociais e advogados para trabalhar com as mulheres da região, tanto em grupo quanto em terapias individuais.


Entre os pontos abordados no evento, ela percebeu que, muitas vezes, as mulheres vivenciam a violência sem se dar conta, porque, como já afirmado, “ainda há uma relação de poder muito grande de homens sobre mulheres”. Estavam presentes mulheres mais idosas, adultas e também meninas que, desde já, têm a oportunidade de conhecer esses temas e se proteger por meio do conhecimento.


“Eu sempre digo que, quando não nos escutam falando, a gente tem que gritar, nem que seja no topo, aquilo que é nosso direito. Ainda há muito preconceito, principalmente contra as vítimas de violência — há aquelas que acabam voltando para os relacionamentos”, declara. O que precisamos não é de mais julgamento, e sim de acolhimento para compreender as nuances mais profundas do que acontece com a mulher a partir da agressão. Isso também é enfrentar a naturalização.


A realidade no Alto Vale do Rio do Peixe

Segundo a articuladora territorial Nilce Dias Martins, a realidade local revela mais um aspecto da violência doméstica: a invisibilização. “Existem mulheres que convivem diariamente com agressões físicas, psicológicas, morais, patrimoniais e sexuais. Muitas delas em silêncio, por medo, dependência financeira ou falta de apoio. Nas áreas rurais, as dificuldades de acesso aos serviços de proteção e acolhimento tornam essa situação ainda mais desafiadora”, afirma.


Para Nilce, o Seminário cumpriu seu papel especialmente porque promoveu reflexão, formação e conscientização, além de fortalecer a articulação entre diferentes atores sociais. “Tivemos a participação de diversas instituições, lideranças, educadores, estudantes, multiplicadores e pessoas comprometidas com a defesa dos direitos das mulheres”, conta.


Cada seminário é uma oportunidade de plantar novas sementes e fortalecer a transformação social. Ela complementa: “Em um contexto marcado pelo individualismo, pela intolerância e pela desinformação, reunir pessoas e instituições em torno de uma causa comum é um ato de fortalecimento da democracia e dos direitos humanos. O seminário demonstrou que a transformação social acontece quando diferentes setores da sociedade se unem, compartilham conhecimentos, constroem redes de apoio e assumem juntos a responsabilidade de promover mudanças reais em seus territórios.”


Ainda de acordo com Cristiane Velho - Multiplicadora de Canoinhas, além de todo valor intelectual do debate, as apresentações culturais marcaram o evento. “Foi um verdadeiro acontecimento cultural em nível estadual e mostrou a força da educação popular social. As apresentações dos multiplicadores revelaram a riqueza dos territórios, destacando talentos, cultura, identidade e o potencial das pessoas que constroem diariamente suas comunidades. Cada performance trouxe um pouco da essência do povo catarinense, reafirmando que cultura também é transformação social”, destacou. 


Em suma, é crucial compreender que essa transformação não depende apenas das mulheres. O enfrentamento da violência exige a participação ativa dos homens, das instituições e de toda a sociedade. As leis são fundamentais, mas a mudança cultural é igualmente necessária. Por isso, é imprescindível fortalecer a informação, a conscientização e as redes de apoio para que as mulheres saibam que não estão sozinhas. Mais do que um evento, o seminário foi a prova de que, quando diferentes setores se unem em torno de uma causa comum, abrem-se caminhos concretos para que a autonomia feminina deixe de ser vista como ameaça e passe a ser celebrada como direito inegociável.


O seminário foi uma oportunidade de escuta para os homens do território.
O seminário foi uma oportunidade de escuta para os homens do território.

 
 
 

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