Horta comunitária e educação quilombola no NAPS em Araranguá
- 20 de jul.
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Por: Jaine Fidler Rodrigues
Em um cenário onde a correria do dia a dia abafa ações sociais voltadas à preservação de sabedorias ancestrais e ao cuidado com o meio ambiente, os Núcleos de Articulação Popular (NAPS) surgem como um terreno fértil para semear o diálogo e colher transformações. É o caso do projeto "Da Casca ao Prato", uma iniciativa que nasceu como ideia ainda no PEPS 1, com uma proposta concreta e simbólica: repensar o ciclo do alimento, do descarte ao cultivo e, nesse processo, cultivar também novas lideranças.
"Desde o PEPS 1 eu já vinha falando sobre criar uma horta escolar na escola de Educação Quilombola, dessa parte ancestral de cuidado com a matéria e os alimentos", contou o multiplicador do Extremo Sul, Silas dos Santos da Silva. Junto dessa ideia, Silas também visualizava o uso de composteiras caseiras como uma prática a ser fomentada — afinal, o olhar para o alimento como matéria que se transforma em adubo se complementa com o cuidado de uma horta.
Foi no primeiro encontro com os demais participantes, por meio do diálogo e da escuta ativa, que ficou decidido: o projeto consistiria na criação de uma horta comunitária. O projeto está sendo executado e, nesse caminho, desafios já se mostraram presentes. Na prática, encontrou-se uma terra com poucos nutrientes e plantas com dificuldade para se desenvolver. Mas, quando se trata de coletivos como este, soluções que no âmbito individual parecem distantes tornam-se possíveis no PEPs. Logo, uma estudiosa da área ambiental avaliou o terreno e apontou caminhos. "Isso é apoio e participação, é sobre dividir o fardo", refletiu Silas.
O primeiro encontro é descrito por ele como um mergulho no desconhecido. "Foi aquela questão de nervosismo, de não saber o que dizer, não saber bem como conduzir, como fazer a articulação, como introduzir o projeto... Se a galera ia aceitar, se não ia", confessa. Foi nesse espaço de vulnerabilidade que, coletivamente, o projeto deu seus primeiros brotos. "A ideia era: vamos debater, vamos construir. O que vamos fazer? Vamos fazer a ideia dos baldinhos, vamos fazer uma horta comunitária, onde todo mundo pode se ajudar. E aí ficou a horta comunitária."
O ponto de virada, o que verdadeiramente marcou Silas, foi a possibilidade de enxergar profundidade nos participantes. "A dinâmica foi o que mais me deixou contente com os multiplicandos, porque me permitiu ver um lado deles, um pensamento, uma resposta que, em um ambiente comum do dia a dia, eu não veria. Eu não faria aqueles tipos de perguntas, aquelas indagações que foram feitas no NAPS, próprias de um núcleo de articulação popular, onde a gente debate questões populares", explica.
Essa jornada lapidou uma liderança. Ao se autoavaliar, Silas é crítico e generoso consigo mesmo. "Eu vejo em mim, em perspectiva de como eu estava e como estou agora, que, em relação ao NAPS, eu evolui muito." Ele reconhece falhas no engajamento inicial: "Teve questão de horário, de entender que hoje vieram poucas pessoas, mas eu também falei pouco no intervalo de um encontro e outro. Apesar de mandar mensagem no grupo, lembrei pouco, engajei pouco, motivei pouco. Relacionei pouco eles com o projeto. Porque o nosso projeto também é de vocês, né? Poderia ter sido mais".
O saldo dessa experiência não se limita à capacidade de facilitar um encontro, mas transborda para a formação humana. "Eu, como liderança, me desenvolvi em muitos aspectos. Não só como liderança, mas como indivíduo também", conclui Silas. A fala ecoa a filosofia do NAPS: um espaço onde, ao aprender a cultivar, os participantes se descobrem capazes de cultivar a si mesmos e suas comunidades, provando que a transformação, assim como o adubo, vem das coisas simples que aprendemos a valorizar.





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