NAPS Saberes Coletivos: Onde a Terra, a Cultura e a Voz das Mulheres se Encontram para Florescer
- 28 de jul.
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O grupo transforma o território do assentamento Irmã Engendira em um laboratório vivo de educação popular, onde a teoria brota do chão e se faz ação coletiva
Por: Jaine Fidler Rodrigues

“Eu nunca me coloquei como palestrante nos nossos encontros, a gente sempre fez um diálogo aberto, nunca teve uma pessoa que estava ali a coordenar. Eu apenas mediava as interações.” A fala da multiplicadora responsável pela coordenação do coletivo, Joselaine de Lima, ao descrever o nascimento do NAPs Saberes Coletivos, já revela a essência do grupo que floresceu no assentamento do Movimento dos Trabalhadores Sem Terra, Irmã Jandira, em Curitibanos, no Recanto Funcho. Um espaço onde a educação popular, inspirada em Paulo Freire, não é um conceito distante, mas uma prática viva que se tece na escuta, na partilha e no movimento constante entre o aprender e o fazer.
A trajetória do núcleo começou a partir de um convite especial, ainda na segunda etapa de formação do PEPs, após a desistência de uma pessoa. “A convite da Fabíola, eu aceitei o desafio”, conta Joselaine, que já pulsava em sintonia com a articulação comunitária. “Aqui no nosso município a gente já faz um trabalho de reunir as pessoas para fazer feiras de troca, a gente também já participa da rede de agroecologia, então a gente já está no movimento de articulação, porém a gente nunca é remunerado por isso.” O PEPs chegou, então, como uma oportunidade de dar corpo e nome a uma força que já existia, mas que carecia de unidade.
Para formar o grupo, Joselaine convidou pessoas que já estão envolvidas nas comunidades, nos movimentos sociais, no movimento de mulheres, no sindicato e nos assentamentos da região. “Tem técnico da Epagri, professores da universidade, alunos também. Tentei ao máximo contemplar uma maior representatividade de alguns lugares que a gente sabe que já existe um certo movimento, mas que também são ações isoladas, que a gente não consegue às vezes unir forças.” O ponto de encontro foi o Recanto Funcho, um ponto de cultura que também é a casa de Josiane, onde ela trabalha com agroturismo e turismo pedagógico. “Também foi uma maneira de trazer as pessoas para o nosso território, mostrar um pouquinho do nosso trabalho e também partilhar as experiências que a gente tem, mas muito mais de escuta.”
Antes mesmo do primeiro encontro, o grupo já tinha nome e, portanto, identidade e concretude. “Eu pensei em um nome para que as pessoas já começassem a entrar em algo que de fato já tinha nascido: Saberes Coletivos, inspirado na pedagogia do Paulo Freire. Foi para mostrar para as pessoas que já era algo concreto, que aquele grupo já existia e que a gente precisava de corpo e movimento.” E o corpo veio, com um engajamento bonito, guiado por três temas norteadores escolhidos coletivamente: as questões da mulher, a agroecologia e a cultura. “Esses três pontos a gente incluía como prioridade para a gente estar debatendo os temas”, reforça a articuladora.
A potência do Saberes Coletivos reside, no entanto, em sua recusa em separar a teoria da prática. A tradução mais bela dessa filosofia foi o dia de campo, um mutirão que reuniu 34 pessoas na casa dos guardiões de sementes Cláudio e Marlene Bogo. “A gente foi num sábado. Até o meio-dia, a gente fez a quebra do milho crioulo, que eles cultivam há anos. Depois partimos para um almoço orgânico com comida típica da nossa região, feito pela família. E à tarde, a gente fez uma tarde cultural: teve moda de viola, músicas autorais e abrimos um espaço para o debate do NAPs de uma forma mais leve, mais espontânea.” O mutirão foi mais do que um encontro; foi a materialização do bem-viver e da circularidade que o grupo defende.
Para Joselaine, a experiência trouxe um entendimento ampliado sobre o que significam “apoio” e “participação” em um movimento social. O apoio, ela afirma que vem da conexão. “A gente só ama, só gosta, só defende aquilo que conhece. Sozinho você chega rápido, mas junto com outras pessoas você chega mais longe.” Já a participação revelou-se multifacetada, indo além da presença física em reuniões. “Muitas pessoas não conseguiram estar presentes em algumas atividades, mas se demonstravam muito atentas, muito sensibilizadas. Às vezes a pessoa falava: ‘poxa, tá legal o movimento, me mantém informado’. A participação aqui no nosso território está muito relacionada ao cotidiano das pessoas, às exigências da vida, mas ela se dá de várias formas.”
A maior colheita, no entanto, é a decisão de seguir caminhando para além do PEPs. O grupo já está transformando o diálogo em ações concretas, como a estruturação do projeto “Terra, Arte e Pão”, contemplado pelo Orçamento Participativo. “A gente já tem as ideias para estruturar o nosso projeto. O festival é para colocar em prática o que a gente começou a dialogar no primeiro encontro: o bem-viver das pessoas, o resgate da coletividade, mostrar o papel da agroecologia, o nosso estilo de vida campesino.” O NAPs Saberes Coletivos prova, assim, que a educação popular não termina em uma formação. Ela é semente que, plantada em solo fértil e regada pela coletividade, germina em mutirão, cultura, luta e comida boa partilhada à sombra de um milho crioulo que teima em resistir.




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