top of page
Buscar

NAPs: um espaço para as pessoas serem ouvidas

  • há 5 dias
  • 4 min de leitura

Núcleo em Concórdia se tornou um ambiente de acolhimento para histórias pessoais


Por: Jaine Fidler Rodrigues

Quando falamos do Programa de Participação Social e Educação Popular (PEPs), é impossível não falar sobre o que sentimos com sua existência em nossas vidas: o que ele transforma e que partes da nossa essência são tocadas. Para o multiplicador Henrique Zottis, de Concórdia, o PEPs é como um velho amigo que ele não via há muito tempo.


“Conversando com ele, a gente vê que a gente se afastou não por não gostar dele ou não se interessar, mas por acaso da vida. As pessoas estão mais afastadas do movimento coletivo, da participação, e elas sentem falta disso. Ver pessoas que começaram a participar do PEPs e observar a mudança nelas depois disso é a ideia do meu projeto: mostrar essa possibilidade para estas pessoas e trazer esse amigo de volta para nossa vida”, relata.


Criação do NAPs

Durante todo o projeto, multiplicadores são os responsáveis por criar os Núcleos de Participação Social (NAPs). Em Concórdia, em parceria com o Grupo de Artistas Sérios (G.A.S.), o multiplicador Henrique Zottis partiu de uma vontade pessoal: ter um espaço que ele mesmo sentia falta. “Um lugar de encontro de verdade, olho no olho, onde as pessoas pudessem se expressar sobre o que amam: sua música, seu filme, sua história”, explica.


Dentro da estratégia de articulação, Henrique convidou amigos, conhecidos e amigos de amigos que ele sentia que se desenvolveriam como pessoas se tivessem a oportunidade de estar em um espaço que a rotina havia retirado. “Não por acaso: o modelo em que vivemos cultua o sucesso pessoal e nos ensina a não pensar no coletivo. As pessoas são ensinadas a não serem ouvidas. E a cidade nunca teve esses espaços, porque nunca foram criados.”


No primeiro encontro, um fato acentuou o sentido da coletividade para Henrique. Ele planejou uma abordagem crítica e reflexiva sobre como a indústria cultural molda as experiências. Mas a execução saiu diferente do planejado. “As pessoas ficaram genuinamente encantadas em poder falar das suas lembranças, das suas histórias pessoais. O espaço virou acolhimento. E eu entendi que o projeto precisava mudar — a parte crítica viria de forma indireta, sem direcionamento, nascendo da própria troca. Quem mudou o projeto foi o grupo. A partir dali, ele já não era mais meu”, ressalta.


Diante da grandeza do movimento, o articulador percebeu algo que deu muito mais sentido à existência do NAPs: “As pessoas não sabiam o quanto precisavam desse encontro até ele acontecer. E é isso que esses espaços reforçam: que cada pessoa ali é alguém importante, que merece ser ouvida e lembrada. No fundo, é a nossa razão de sermos seres sociais.”


Como o NAPs funciona

De acordo com Henrique, os encontros acontecem aproximadamente a cada dois meses, aos sábados à tarde, na Casa ao Lado, no espaço da Carpintaria das Artes. O projeto é desenvolvido por etapas, e cada encontro aborda uma expressão cultural diferente.


O primeiro foi sobre música e quem escolhe o que nós escutamos. Henrique pediu que cada um dos 17 participantes enviasse uma música que tivesse relação profunda com algum momento da sua vida. A partir dessas histórias, a conversa se construiu. O segundo foi sobre audiovisual, a partir de uma trilha com cenas de filmes, propagandas, clipes e virais de internet — cada trecho abriu uma conversa sobre o que se assiste e por quê. O próximo será sobre literatura, tema definido coletivamente nos encontros.


“Cada encontro é único, e cada um me ensina mais sobre a prática da educação popular. O projeto é uma massa que montamos juntos: nela a gente debate, conversa, apresenta, reflete. No fundo, a dinâmica e os temas são um pretexto. O que realmente importa é a participação acontecer, o acolhimento acontecer. E é assim, juntos, que decidimos para qual caminho esse projeto vai seguir”, destaca.


Com isso, o NAPs se consolida não como um projeto fixo, mas como um organismo vivo, moldado pelas pessoas que dele participam.


Aprendizados do PEPs como um todo

Na totalidade da experiência que o PEPs propõe, o multiplicador entendeu que, muitas vezes, se pensa que as pessoas com os mesmos interesses que os nossos estão distantes — mas o projeto mostrou o contrário. “Eu aprendi que esses espaços são possíveis e me sinto no dever de ajudar a criá-los. A participação de todas e todos me ensinou muito sobre o que é fazer parte de um movimento coletivo e ser um cidadão ativo no território”, enfatiza.


O desenvolvimento das pessoas, especialmente no nível da comunicação, é notadamente percebido. “Eu tive amigos que conheci por causa do PEPs e vejo que hoje cada um está com seu próprio grupo, com sua própria atuação no território, com desenvolvimento tanto da oratória como na vida em si — tudo isso é recompensador.” Para ele, o PEPs devolve um espaço que foi perdido há muito tempo.


Quem é Henrique: uma liderança que escuta e se adapta



A partir dos relatos, é possível saber quem é Henrique como liderança comunitária. Ele se revela sensível ao perceber que o acolhimento falava mais alto do que sua abordagem planejada. É inteligente ao conectar a falta de espaços coletivos com a lógica do sucesso individual. Mostra-se organizado na estruturação dos encontros por etapas e temas, mas também flexível — sua principal qualidade talvez seja a capacidade de ouvir as pessoas a ponto de alterar o rumo do projeto. Ele não impõe; ele propõe e recalcula. Quando o grupo transformou o primeiro encontro em um espaço de memórias afetivas, Henrique entendeu que o projeto já não era mais só dele. Essa é a marca de uma liderança que não centraliza, mas que facilita e confia no coletivo.


 
 
 

Comentários


bottom of page