Entre encontros e territórios: educação popular no Extremo Sul Catarinense
- 14 de mai.
- 3 min de leitura
Por: Eduardo Martinello - Articulador Territorial Extremo Sul

Entre um encontro num salão comunitário, num sindicato, ou na casa de um dos
multiplicadores, me pego pensando no quão significativa é a experiência no PEPS, para
as multiplicadoras e os multiplicadores, mas também para a minha construção enquanto
humano. Em cada território, o cenário muda, mas a essência do encontro é a mesma:
pessoas reunidas para conversar sobre participação, formação e construção coletiva. É
nesse contexto que vivo a minha experiência no Programa de Educação Popular com
Participação Social nos Territórios de Santa Catarina, atuando como articulador territorial
no Extremo Sul Catarinense.
Entre tantos verbos que podem ser atribuídos à minha experiência no PEPS, seleciono
dois: esperançar e viver. Escolhi Esperançar, de Paulo Freire, por significar, de forma
muito simples e direta, “tirar a bunda da cadeira e contribuir na construção de um mundo
melhor”. E, escolhi Viver, pois, desde que entrei na equipe, ainda no PEPS 1 e agora no
PEPS 2, eu vivo a educação popular e este lindo programa no meu dia a dia. Com toda a
certeza, não estou no PEPS tão somente pelo trabalho, mas sim pela significância que este
programa traz para a minha caminhada.
Esse trabalho dialoga diretamente com a minha trajetória. Ainda na graduação em
Engenharia Ambiental e Sanitária, tive meu primeiro contato mais aprofundado com a
metodologia freiriana. Participei de projetos de pesquisa e extensão, trabalhei com
educação ambiental e com processos de educação popular. Foi ali que aprendi que educar
não é transferir conhecimento, mas construir junto. Ideia que carrego até hoje.
No PEPS, essa perspectiva ganha escala e responsabilidade. A atuação territorial envolve
mobilização de comunidades, diálogo com diferentes realidades, organização das
formações e acompanhamento das lideranças que estão construindo as suas formações.
Não se trata apenas de cumprir etapas, mas de criar um ambiente em que as pessoas se
sintam parte do processo, capazes de falar, ouvir, refletir e agir. E, ainda mais do que isso,
a construção de um espaço em que mesmo nós, que trabalhamos no PEPS, possamos
ouvir, contribuir e aprender, em conjunto com todos que participam.
No Extremo Sul Catarinense, cada encontro traz um desafio diferente. Há territórios com
forte organização social; outros estão em processo de fortalecimento e há aqueles em que
a participação social ficou apenas nas lembranças dos áureos tempos de governos
progressistas. Há pessoas que chegam cheias de expectativa, outras com certa
desconfiança. E tudo isso faz parte. O trabalho de articulação exige escuta, paciência e
constância. Muitas vezes, o avanço acontece nos detalhes: na pessoa que começa a falar
mais nas reuniões, na liderança que assume uma tarefa pela primeira vez, no grupo que
decide se organizar para dar continuidade às ações, na formação de Núcleos de
Articulação e Participação Social (NAPS) que disputam o Orçamento Participativo do
Deputado Federal Pedro Uczai, entre outros avanços que são perceptíveis desde o início
desta segunda edição do PEPS.
Mas, o que mais me marca é acompanhar o surgimento de novas lideranças a partir do
próprio processo formativo. Pessoas que antes não ocupavam espaços de decisão e
passam a se reconhecer como referências em suas comunidades. Esse movimento não
acontece de forma automática, ele é resultado de encontros, trocas, estudo e construção
coletiva. Ver isso acontecer, na prática, dá sentido ao trabalho.
O programa segue em andamento e com perspectiva de futuro, e isso é importante. Não
é uma experiência encerrada; é um processo em curso, que continua se fortalecendo nos
territórios. Para mim, participar dele significa continuar aprendendo todos os dias, com
as comunidades, com as lideranças em formação e com os desafios que surgem no
caminho.
O professor e político brasileiro Florestan Fernandes (1920 – 1995), patrono da sociologia
brasileira, dizia que o modelo educacional brasileiro reduziu o professor ao papel de
transmissor passivo do saber importado e os alunos a “páginas em branco”. Neste
contexto, Paulo Freire mostrou que, na verdade, cada pessoa, educando ou educador,
carrega o seu saber e as suas vivências, ensinando e aprendendo em conjunto.
Ainda nesta linha, no livro “O menino do dedo verde”, Druon escreve, em um dos tantos
diálogos do livro, o seguinte: “- Uma cidade – começou o Sr. Trovões, que prepara bem
para a sua aula -, uma cidade se compõe, como você pode ver, de ruas, monumentos,
casas e pessoas que moram nas casas. Na sua opinião, o que é mais importante numa
cidade?; - O jardim - respondeu Tistu”. De certo modo, fazendo uma analogia, o PEPS é
o jardim destes territórios, é no PEPS que plantamos o esperançar de Freire, regamos as
ideias e, certamente, colheremos os frutos de um território vivo.
Sigo acreditando que a educação popular é uma ferramenta concreta de transformação
social. E sigo comprometido com a construção de espaços onde a participação não seja
apenas um conceito, mas uma prática cotidiana.




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