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Valoriza SUS: união de trabalhadores (as) da saúde

28 de set.
4 min de leitura

Em Tijucas, no litoral de Santa Catarina,  NAPS transformou um pouco da correria do dia a dia em encontro, escuta e participação popular

Por: Jaine F. Rodrigues


Há quem diga que trabalhar na saúde pública é viver no limite entre o cuidado com o outro e a exaustão de si mesmo. Em Tijucas, cidade de pouco mais de 50 mil habitantes na Grande Florianópolis, essa realidade não é diferente. Mas foi justamente nesse cenário de sobrecarga que nasceu o NAPS Valoriza SUS — um núcleo de Articulação de Políticas Públicas e Participação Social que, em 2026, deu seus primeiros passos dentro do Programa de Educação Popular e Participação Social (PEPs).


O relato vem de um agente comunitário de saúde e multiplicadpr no PEPs, Matheus Rocha. Ele conta que, quando foi convidado a participar do PEPs — sua primeira experiência no programa —, já tinha essa ideia do que queria fazer. "Hoje coordeno o NAPS que se chama Valoriza SUS, que tem como objetivo criar uma comunidade entre os trabalhadores de saúde", explica.


Um sindicato que não existe, uma comunidade que se inventa

A ausência de um sindicato que representasse os trabalhadores da saúde em Tijucas foi, ao mesmo tempo, uma falta e um combustível. "Então o NAPS veio para a gente conseguir juntar os trabalhadores de saúde num ambiente comum, para começar a discutir políticas públicas e melhorias no Sistema Único de Saúde."


A ideia era simples na essência, mas complexa na execução: criar um espaço de encontro entre recepcionistas, agentes comunitários, técnicos, enfermeiros — gente que muitas vezes se cruza nos corredores das unidades de saúde, mas nunca tem tempo de parar e conversar sobre o que fazem, como fazem e por que fazem.


As dificuldades da mobilização

Conforme o projeto foi caminhando, as dificuldades apareceram. A principal delas: mobilizar. "A maioria dos profissionais tem dois empregos, mora em outra cidade, não são concursados, são trabalhadores contratados ou de seletivos", relata. E acrescenta: "A gente foi percebendo essa dificuldade porque as pessoas não queriam se mobilizar, primeiro, por medo de perder o trabalho e, segundo, por falta de tempo."


O medo é um dado que não pode ser ignorado. Em um contexto de vínculos precários, participar de um espaço de discussão política pode soar, para muitos, como risco. Foi preciso, então, mudar de estratégia. Em vez de convocar, acolher. Em vez de exigir presença, oferecer algo que fizesse sentido para quem estava sendo chamado.


A virada: recepcionistas, rodas e escuta

A primeira aposta foi nos recepcionistas da saúde — aqueles que trabalham nas UBSs e hospitais, na linha de frente do primeiro contato com a população. "A gente fez um curso de resolução de conflitos com uma professora amiga nossa da Secretaria do Estado, onde a gente conseguiu fornecer o curso para mais ou menos 18 recepcionistas", conta.


Depois vieram as rodas de conversa sobre saúde mental, com um psicólogo parceiro do projeto. Foram três encontros. "A gente teve a participação da maioria, foram a gente da comunidade de saúde, que é onde eu tenho o maior contato. Eu consegui chamar e foi onde eu tive mais assertividade", relembra.


A pauta também avançou para questões estruturais. Uma reunião com um advogado sobre a associação dos agentes comunitários de saúde resultou na criação de uma comissão vinculada à Secretaria de Saúde. "Então a gente tem reuniões mensais com a Secretaria, a gente consegue levar as dificuldades, levar os problemas e conseguir soluções."


O encontro que virou marco

Mas foi um encontro específico que o multiplicador destaca como o principal momento do projeto até agora. Aconteceu uma semana antes da Conferência Municipal de Saúde, num sábado. "A gente conseguiu trazer mais de 400 profissionais", orgulha-se.


O formato foi pensado para ser mais do que uma reunião: teve churrasco, almoço comunitário, roda de conversa com o psicólogo, oficinas, campanhas e até uma Olimpíada dos Profissionais de Saúde, com campeonatos de futebol e natação. "A gente conseguiu fazer um evento bem legal, principalmente porque a gente conseguiu fazer um sábado. Mas foi bem difícil conseguir fazer esse encontro", admite.


O sábado foi uma escolha estratégica: único dia em que boa parte dos trabalhadores consegue respirar fora do expediente. E o evento conseguiu algo raro: unir lazer, cuidado e participação política no mesmo espaço.


Do encontro ao Plano Municipal de Saúde

O resultado mais concreto veio depois. "Agora a gente tem uma estrutura já bem formalizada, a gente conseguiu aprovar duas propostas na Conferência Municipal de Saúde, colocando o projeto no Plano Municipal de Saúde. Então agora está oficializado."


A partir de 2027, quando o novo Plano de Saúde começar a vigorar, o NAPS Valoriza SUS deve ganhar espaço físico para os encontros — algo que, até agora, era uma "gigantesca dificuldade", já que "tudo é pago". Além disso, a gestão municipal entrará como parceira formal, assumindo corresponsabilidade pelo projeto. "Eles vão entrar como parceiros mesmo. E a gente vai conseguir fornecer essas rodas de conversa durante o horário de trabalho, consultas com o psicólogo, com o advogado."


Para além de Tijucas

O horizonte do Valoriza SUS não se limita às fronteiras do município. "A gente tem proposta para levar isso para outros municípios, começar com os municípios vizinhos, fazer um plano piloto bem legal, tentar levar isso para o governo federal, para a gente tentar fortalecer", projeta o multiplicador.


Em outubro, o grupo fará mais um encontro. "Esse vai ser basicamente mais uma festa mesmo, para a gente comemorar, para a gente se juntar e conseguir ter um tempo de lazer. Que é muito difícil", diz.


A escolha da festa como método não é ingênua. Em um cotidiano marcado por dupla jornada, medo e precarização, comemorar é também resistir. É criar vínculo. É dizer que a saúde não se faz só com protocolos, mas com gente que se conhece, se reconhece e se organiza.


"Estamos na luta, continuando, não paramos", resume, Matheus. E conclui: "Estamos na luta."




 
 
 

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